Camilla Barretto , na manhã em que abriu as portas da Casa Joaquim Barretto para o público da Brazilian Luxury Travel Association (BLTA), a CEO da entidade transformou a residência paulistana onde cresceu no Pacaembu – projeto de seu pai, o arquiteto Joaquim Barretto (1940–1985) – em palco de um debate que foi além da memória familiar ao propor reflexões institucionais sobre como os espaços, especialmente na hotelaria, podem estimular enredos pessoais, afetos e identidade, em equilíbrio com atributos técnicos como funcionalidade e eficiência operacional.

Realizado no último dia 29 de abril, o encontro reuniu cerca de 40 profissionais da imprensa especializada, da arquitetura, do design e da hotelaria em torno da roda de conversa Entre Espaços e Memórias: Arquitetura, Design e Hospitalidade. Mediado por Camilla, o bate-papo contou com a presença das arquitetas Ana Almeida Prado Sawaia, Janice Miguel e Mariana Simas. Ao promover o evento, a BLTA reafirmou o papel da entidade como articuladora de experiências e hub de produção de conteúdo que conecta seus associados a diferentes disciplinas e olhares, fortalecendo o turismo brasileiro sob diferentes perspectivas e dimensões construtivas.
“Quando falamos em luxo hoje, já não estamos tratando mais da ideia pequena de opulência. Estamos falando de experiências, de memórias e conexões verdadeiras. A BLTA nasceu 18 anos atrás, para promover nosso turismo de alto padrão a partir da autenticidade de nossa brasilidade e das riquezas naturais – que conhecemos profundamente, mas que o mundo ainda está descobrindo. Reunir pessoas tão qualificadas nesta casa que, para além da importância arquitetônica, carrega tantas histórias pessoais é mostrar que hospitalidade vai além da hospedagem: ela está na capacidade de criar experiências que permanecem”, afirmou Camilla na abertura do encontro que teve sua mãe, proprietária da casa e viúva de Joaquim Barretto, Maria Luisa Barretto, como anfitriã.
Com 67 hotéis e oito operadores associados espalhados pelo país, a BLTA consolidou-se como uma entidade estratégica para a valorização da hospitalidade brasileira em sua dimensão mais ampla – não apenas como excelência em serviço, mas como expressão de cultura, território, repertório estético e identidade. Nesse contexto, experiências de alto padrão passam a ser compreendidas como construções integradas, nas quais arquitetura, design, paisagem e memória ajudam a posicionar o Brasil de maneira única diante de um cenário global cada vez mais atento à autenticidade. “O trabalho da BLTA tem justamente buscado valorizar propriedades e experiências que são verdadeiramente brasileiras e que conectam o hóspede ao território, esteja ele na praia, em um centro urbano ou em destinos remotos. O mundo tem olhado para o Brasil com muito interesse, e nosso papel é ampliar essa voz, contando nossas histórias com autenticidade e mostrando que a brasilidade deve ser exportada para ser valorizada – não para ser replicada”, completou Camilla.
Responsável pela curadoria e pelo projeto de interiores desenvolvido para o Barracuda Hotel & Villas, empreendimento associado da BLTA criado por investidores brasileiros e suecos em Itacaré, Janice Miguel destacou como o mercado tem valorizado empreendimentos capazes de traduzir pertencimento. “O entendimento do território, a compreensão de onde você está inserido, é muito relevante para o desenvolvimento de um projeto como o do Barracuda. Estar na Bahia, em Itacaré, exige uma integração profunda com o local, com o que é nativo, com os materiais brasileiros, com o clima e com a paisagem. O grande diferencial desse projeto é que, nele, não havia ideias engessadas, mas uma abertura real para criarmos um novo lugar com identidade própria, conceito e profundamente enraizado no território.”
Ao longo do encontro, ficou evidente que a BLTA representa mais do que uma associação de hotéis independentes de alto padrão: ela articula um ecossistema em que a hospitalidade é potencializada como noção de luxo baseado em assinatura e repertório cultural. Nesse universo, profissionais e escritórios como Isay Weinfeld, Ruy Ohtake, Studio MK27, Bernardes Arquitetura, Jacobsen, Sig Bergamin, Patricia Anastassiadis, David Bastos e Wilbert Das ajudam a consolidar arquitetura, design e paisagismo como ferramentas de diferenciação espacial e sensorial, atributos cada vez mais presentes na essência dos projetos ligados ao universo da BLTA.
Para Ana Almeida Prado Sawaia, conselheira no Instituto Virginia e Vilanova Artigas e diretora adjunta de Políticas Culturais e Difusão do IAB-SP, esse movimento responde a uma transformação profunda na forma como o valor da arquitetura e do design é percebido globalmente.“O verdadeiro valor está em poder preservar a memória – memória da nossa cidade, da nossa arquitetura, de nossa cultura – e ver renovações acontecendo sem que a gente perca essa identidade. É preciso olhar para dentro do nosso país, reconhecer o que já foi feito de extraordinário e tornar esses avanços permanentes para as pessoas.”
Mariana Simas , diretora executiva do Studio MK27 – o renomado escritório de Marcio Kogan, onde ela atua desde 2008 –, destacou como a assinatura brasileira ganha relevância em um mercado cada vez mais orientado pela busca por autenticidade.“Desenhar hotéis tem muito a ver com o cruzamento entre vida e espaço, entre emoção e construção. Quando viajamos, estamos sempre mais abertos e mais sensíveis, e a arquitetura e o design são partes profundas dessa experiência. Como brasileiros, temos muito a contribuir, sobretudo por nossa espontaneidade e a forma mais viva e menos rígida que temos no gesto de acolher”, concluiu Mariana.
Para Maria Luisa Barretto – personagem central na concepção da residência ao desafiar o marido e Segnini a desenharem uma proposta mais ousada do que o projeto brutalista inicial, apresentado por eles em 1977 – abrir as portas de sua casa para receber os convidados da BLTA quando o imóvel completa 45 anos é um gesto que teria encantado o próprio Joaquim, por reforçar a vocação original do espaço criado por ele.
Ao transformar a Casa Joaquim Barretto em cenário para discutir as conexões entre arquitetura, design e hospitalidade, a BLTA reforçou a mensagem central de que, no turismo de luxo contemporâneo, experiências memoráveis nascem da convergência entre espaço, identidade e pertencimento. Mais do que promover destinos, a associação evidencia que o futuro da hospitalidade brasileira está na capacidade de transformar patrimônio, autoria e brasilidade em experiências com significado duradouro.