A imensidão do universo é a principal fonte de inspiração do inverno da grife carioca Carol Rossato, que abre hoje, quarta-feira 24 de abre seu primeiro ponto de venda em São Paulo, na Rua Peixoto Gomide. Entretanto, a estilista expert em leatherwear, em expansão e prestes a completar 25 anos de estrada, não mirou em um exercício de futurismo para conceber a coleção, mas no oposto: considerou o espaço sideral metalinguagem para a busca do “eu interior”. Não se trata de uma coleção asséptica, como seria de esperar de um brainstorm acerca das profundezas do espaço ou da alma, mas justamente o contrário. Essa nova fornada de peças é orgânica, em sintonia com o crescimento individual quando se considera a psiquê um vasto território universal a ser explorado e se leva em conta a natureza do couro e do chamois, beneficiados por processos cada vez mais verdes, sobretudo no tingimento das cores – um dos pontos fortes da marca.

“A plasticidade visual do couro me fascina e sua atemporalidade enquanto matéria-prima é inegável. É como se, na vastidão do cosmos ou perdidos nos devaneios, estivéssemos alheios à passagem do tempo, permanecendo imersos nos pensamentos a despeito de a vida avançar. Acredito na possibilidade de embarcarmos em uma existência cada vez mais descomplicada, sensorial e fluida, na qual a simplicidade precisa perdurar. Uma boa jaqueta de couro é assim: dura mais que toda a vida, passa naturalmente por gerações”, afirma Carol.

 

Para tanto, Carol Rossato partiu do hipotético exercício em que a aviadora Amelia Earhart (1897-desaparecida em 1937) – pioneira da aviação, defensora dos direitos das mulheres e primeira mulher a voar sozinha sobre o Oceano Atlântico – teria sido se cristalizado no espaço infinito. Faz sentido. Seu corpo e avião nunca foram encontrados. A aventureira desapareceu sobre o Oceano Pacífico, perto da Ilha Howland, quando tentava realizar um voo ao redor da Terra e foi declarada morta dois anos depois, em 1939, mas permanece seu legado de coragem, determinação e empoderamento até os tempos atuais. “Imaginei uma viagem em que, no caminho, encontrássemos o avião de Amelia ainda vagando por aí, congelado, como se o seu sonho de unir o planeta através da superação de distâncias encontrasse amplitude na odisseia desses novos tempos”, imagina Carol.

Na coleção,  a estilista brinca com essa proposta de jogos semióticos: o uso de tachinhas de dois tamanhos, em banho ouro velho, remete às constelações (ou ao desenho dos signos zodiacais, que ela enxerga como oráculo do conhecimento interior) e o efeito criado com vieses verticais, em peças dupla-face, codifica as dobras do espaço-tempo. Aliás, nessa explosão de sentidos, a marca aposta em processos de construção que se desdobram em significações sinestésicas – a aparência, o toque e o cheiro do couro colaboram nessa direção –, com itens que reforçam a beleza dessa matéria por vezes em efeito dupla-face, novidade que abdica do uso da costura.

 

Ainda no campo das representações, como não amar as versões modernizadas da jaqueta perfecto e do parkas, formas derivadas do guarda-roupa do aviador e que, ao lado de macacões, tanto reforçam o aspecto utilitário da estação quanto celebram a poderosa herança imagética de Amelia Earhart?

 

São highlights: golas mais estruturadas, abertas ou removíveis, mangas amplas, palas de recortes gráficos, acabamentos a laser que suprimem a costura imprimindo modernidade sideral e o contraste entre modelagens curtas ou longas e entre secas e amplas, tudo com pegada nineties, além de peças 2 e 3 em 1 – modelos versáteis que possibilitam diversas formas de uso.

 

Na cartela de cores seca e pontual, contrastam com o preto as tonalidades terrosas pastel – taupe, almond, off-white e rosé –, além de plum, esmeralda e um azul acinzentado clarinho que a estilista chamou de nuvem.